Larissa Fonseca

A situação ocorrida no Oscar (agressão de Will Smith a Chris Rock), nada mais é que um reflexo da nossa atual sociedade. Vivemos um momento delicado. As brincadeiras, as piadas, são formas que utilizamos para quebrar o gelo e, muitas vezes, isso nos faz mais confortáveis com o holofote (uma situação de destaque) e até ganharmos a simpatia das outras pessoas por meio da comédia.

Quem observa é a psicóloga Lala Fonseca, com especialização em Teoria Cognitiva Comportamental, que participou do programa Lado a Lado Com a Notícia desta quinta-feira (31) falando a respeito. Segundo ela, a brincadeira, na maioria das vezes, diminui o outro para “eu” ficar por cima. Ao diminuir o outro, automaticamente me coloco em uma posição de superioridade conquistando a simpatia do grupo em questão.

“Vemos isso recorrentemente em situações familiares, redes sociais e ambientes de convívio profissional. Aliás, esse último caso pode ser motivo de assédio moral e levar a vítima ao Burnout pela sensação recorrente de inferioridade o que demonstra ao grupo, uma incompetência profissional diminuindo sua produtividade”.

Conforme Lala, a atitude de Will Smith demonstra falha na inteligência emocional na situação em questão. “Essa forma de inteligência é a que pondera nossas atitudes mesmo em uma situação com alto desgaste e sofrimento emocional. Ao responder explosivamente à agressividade de Chris Rock (a piada é uma forma agressiva de conquistar a audiência) demonstrou que emocionalmente está com dificuldades em lidar com a doença da própria esposa e expôs uma questão delicada para si”.

A profissional afirma: “Nessa questão, ambos erraram. Não podemos assumir que o outro não vai se sentir diminuído com brincadeiras. São formas de colocar para fora a agressividade e o desconforto que sentimos”.

Ela ainda observa que o humor, segundo Sigmund Freud, é uma porta para o inconsciente ou, como poderíamos denominar na Terapia Comportamental Cognitiva (TCC), crenças que precisam vir à cognição. Construir piadas e fazer um grupo rir, é uma forma de prazer que, em sua maioria, esconde uma inibição e torna consciente o que normalmente não deveria, seja por que o pensamento poderia ser preconceituoso para si mesmo e sua cognição falha no processo de perceber o pensamento e guardar para si: “não deveria pensar dessa forma”; “me causa estranheza uma mulher sem cabelos”, os pensamentos poderiam ser inúmeros e a interpretação dessa situação também.

“Algumas alternativas frente ao desconforto vivenciado por Will Smith seria subir ao palco e expor a dificuldade inclusive auxiliando outras pessoas que podem estar passando pela mesma situação (o que inclusive teria sido uma ótima lição para Chris não brincar nunca mais com as fraquezas de outras pessoas) ou até, simplesmente levantar e sair com sua esposa, o que seria perfeitamente compreensível, pontuando assim, seu desconforto. A principal forma de lidar é colocar a pessoa no mesmo lugar que ela o colocou em resposta imediata à piada. O objetivo é constrangê-la pela sua atitude e assim, poderia fazer tal pessoa se colocar no mesmo lugar da vítima para assim, deixar de fazer brincadeiras”.

Ela acrescenta que outra maneira, quando em ambiente profissional, se um gestor faz brincadeiras o ideal é chamá-lo de canto e expor como se sente, caso não funcione, outras atitudes podem ser tomadas.

“A lição que recebemos de presente é uma repetição da vida, temos conceitos que precisamos quebrar, tornar conscientes e refletir sobre nossos desconfortos sociais. Será que dessa vez, vamos aprender que de diferenças e dificuldades alheias não devemos brincar? Assim como, aprender de uma vez por todas: mesmo pressionados emocionalmente não devemos reagir e sim, agir de forma consciente em situações que nos colocam no limite e suplicam pela nossa inteligência emocional”.

Link Original: https://gazeta670.com.br/noticia/2022/03/31/b1a50b51-b4d6-4485-a50d-c83099b83970